Néquim

   


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"Néquim" é um projecto artístico da autoria de Nuno de Campos, artista português residente em Nova Iorque.

Este projecto estará exposto no espaço Fundação PLMJ, em Lisboa, de 7 de Outbro a 22 de Novembro de 2008. Acompanha a exposição um catálogo que incluiu reproduções das obras expostas e de vários documentos, além do texto do comissário Miguel Amado incluído abaixo.

A realização deste projecto não seria possível sem o empenho e coragem da família Sousa Teixeira, e o apoio da Fundação PLMJ e a colaboração estreita com o comissário Miguel Amado. Aqui ficam os devidos agradecimentos.

 

Introdução

Portugal e a História desencontraram-se, sucessivas vezes, ao longo do século XX. A interminável ditadura, com o consequente arrastar do colonialismo, marcaram o país política, económica e culturalmente. Em contra-ciclo com a Europa além-Pirinéus, Portugal perdeu-se nos sinuosos caminhos do «labirinto da saudade» - como Eduardo Lourenço definiu a condição portuguesa em finais da década de 1970 - e, ainda hoje, procura a luz ao fundo do túnel, com o seu «medo de existir», como referiu, em 2004, José Gil. Ensimesmada em especulações formais devedoras do modernismo do pós-II Guerra Mundial, a produção artística alheou-se, no rescaldo do 25 de Abril de 1974, da análise da realidade nacional, tanto contemporânea como do passado recente. A raridade com que os artistas debatem problemáticas prementes da sociedade suscita renovadas esperanças sempre que um projecto se enquadra nestas premissas. Tal é o caso de «Néquim», de Nuno de Campos, que examina acontecimentos de 1968, um ano especial do mundo ocidental, em geral, e de Portugal, em particular.

Nuno de Campos inspirou-se na vida de Daniel de Sousa Teixeira, conhecido como «Néquim» entre os seus familiares e amigos próximos. Segundo a versão oficial do regime, Daniel de Sousa Teixeira faleceu no Hospital de São José, vítima de um ataque de asma brônquica, na manhã de 24 de Outubro de 1968. A PIDE prendera-o dois meses antes, na sequência do seu envolvimento na malograda operação armada da organização revolucionária LUAR, que visava a tomada temporária da cidade da Covilhã. Na Prisão de Caxias, Daniel de Sousa Teixeira correspondeu-se com a família, relatando o quotidiano e reflectindo acerca da sua trajectória pessoal. Embora consciente do escrutínio efectuado pela censura, nestas missivas abordou, por exemplo, a formação católica obtida e a vocação para o sacerdócio, a partida de Portugal para Louvaina, no sentido de estudar Psicologia, o envolvimento com uma jovem belga, a iniciação na LUAR e, nas entrelinhas, a situação de preso político aos 22 anos.

Nuno de Campos desenvolveu numa série de grandes desenhos executados a carvão, com carácter realista, inspirados em frases escolhidas daquelas cartas. Através de uma determinada proposição, cada imagem traduz um pensamento. Por exemplo, uma vista de Trás-os-Montes, onde a Polícia deteve Daniel de Sousa Teixeira, legenda-se com «Na LUAR, não tive tempo para sequer pensar», demonstrando, assim, as dúvidas que assolaram o seu espírito. Já à perspectiva de uma rua de Lisboa, com a característica arquitectura do Estado Novo, ajusta-se a passagem « Evidentemente que isto entrou em conflito com o que tinha vivido e aprendido em casa e criou em mim um desejo enorme de construir um MUNDO NOVO », revelando, pois, o idealismo que definia a personalidade de Daniel de Sousa Teixeira. Contudo, nem todos excertos seleccionados relevam de um pendor introspectivo; por exemplo, um exprime uma trivialidade como uma gabardina enviada para os irmãos, que estes usariam, à vontade, desde que a não danificassem.

A estas obras contrapõem-se outras, de pequena escala, realizadas em estilo livre, intituladas apenas com datas compreendias entre Setembro e Outubro de 1968. Trata-se de simulações de eventuais esboços feitos pelo próprio Daniel de Sousa Teixeira enquanto recluso. Nestes, vislumbram-se, por exemplo, armas como as utilizadas pela LUAR, a cadeira da qual caiu Salazar nesse Verão e o retrato de José de Sousa Teixeira, figura paternal omnipresente. Completa este corpo de trabalho um conjunto de documentos, colocados em linha num sítio criado para esse efeito e parcialmente reproduzido no catálogo - entre outros, diversos recortes de imprensa, a ficha prisional de Daniel de Sousa Teixeira, um requerimento ao Ministro do Interior redigido pelo seu pai e uma nota de Marcello Caetano a este endereçada. Ao apelar à memória colectiva mas cruzando factos com ficção, Nuno de Campos representa os paradoxos da biografia de Daniel de Sousa Teixeira, dividido entre o sentido de patriotismo e responsabilidade individual herdado da sua educação e o espírito emancipador abraçado no estrangeiro.

Nesta exposição, enunciam-se as contradições ideológicas de uma época especial de Portugal, da Europa e do mundo. De um lado, sopravam os ventos de esperança dos protestos contra o conflito no Vietname, da França do Maio de '68 e da renovação do Estado Novo sob os auspícios de Marcello Caetano. Todavia, pairavam também o espectro da guerra fria, da Cortina de Ferro e do Salazarismo. A defraudada Primavera Marcelista demonstra como, no contexto português, o sistema social vigente resistia à transformação das mentalidades exigidas pelos círculos progressistas, nos quais despontara uma juventude crescentemente inquieta. Daniel de Sousa Teixeira, filho de um raro casal inter-racial da classe média urbana, consolada com a honrada subsistência legada por Salazar, enredou-se numa malhas de promessas, pagando com a própria vida a ousadia de sonhar. Ao articular micro experiência com grande narrativa, Nuno de Campos propõe uma original leitura do Portugal de finais da década de 1960 à luz dos nossos dias.

Miguel Amado, 2008